sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dá-me a mão!



Há cerca de uns meses escrevi algo, no momento não percebi o efeito dessa escrita, hoje consigo ver o que produziu e continua a produzir em mim...aqui fica o que escrevi, cumpro assim o que prometi este texto data de 20 de Junho de 2009...


Um dia, um grupo de amigos foram viajar, decidiram ir para um clima tropical, chuvas e calor, num momento estava um calor abrasador, o calor sentia-se no corpo, este gotejava.

Lá iam os três amigos na sua caminhada, nesse dia ao sairem da sua tenda observavam um lindo sol, os seus raios atravessavam as copas das árvores e irradiavam luz, linda, linda, linda!

Aqueles raios de sol, feixes de luz, incidiam no nosso corpo e sentiamos uma sensação de paz, tranquilizadora, o que se ouvia era simplemente a natureza, o riacho que corria lá longe e as aves que cantavam, voavam, pairavam no ar em liberdade :)

Os três ali, naquele lugar, felizes! Com uma alegria, um sorriso no rosto de felicidade, contentamento, em cada expressão havia um sentir amoroso, um coração que se sentia amado e grato por estar ali no meio daquele mundo sossegado, lindo, porém ao mesmo tempo rodeado de perigos, estavam num clima tropical, numa selva, até ao momento não tinham encontrado, enfrentado nenhum dos possíveis perigos, porém poderia acontecer a qualquer momento ou não acontecer.

Lá iam os três partilhando aquele momento, cada um vivendo no momento, naquele mundo, partilham o mesmo mundo, mas vivem em mundo diferentes, conversavam, riam, brincavam, silenciavam e neste silêncio percebia-se que havia uma introspecção, cada um naqueles momentos de silêncio entrava no seu mundo, era uma oscilação entre estar no seu mundo introspectivo rodeado, submerso de experiências, sentimentos, vivências, expectativas, sonhos, esperanças, ilusões, enganos, erros, inseguranças, medos, por momentos saiam do seu mundo e apesar do calor respiravam a brisa de ar fresco, que o mundo exterior, lhes permitia respirar, e ali vinha uma lufada de ar fresco.

Cada um com as suas lutas, as suas questões, os seus dilemas ali estavam eles.

Numa questão de segundos começou a chover, chuva tropical, soube tão bem, ficamos felizes, ainda mais felizes, pois dado o calor que se fazia sentir, então começamos a correr pela selva felizes, alegrando-nos com cada gota de água que caia sobre nós, corriamos, corriamos e começamos a cantar, de repente no meio de risos e gargalhadas começou-se a ouvir algo diferente, um som, uma melodia linda que saía de lábios sinceros, algo lindo, lindo, este som começou a ser cada vez mais audível e em vez de se ouvir este som de uma só voz, começou-se a ouvir as três vozes diferentes a cantar este som, lindo, profundo, libertador, que veio do mais profundo do ser, um som amável, desejável, que fazia cada um sentir o amor profundo que brotava do interior de cada um, mas este interior, respirava um som de adoração, um som inspirador, inspirado, por um ser superior, Soberano, Glorioso!

Então aquele foi um momento lindo, encorajador, imagina, os três dançando à chuva, correndo e cantando, não voavam, mas a liberdade que sentiam era de maneira tal que se sentiam em liberdade, moviam-se em liberdade como o voo, o andar da Gaivota, da Águia, da Andorinha, e ali estavam em liberdade.

Ali estavam com questões pessoais por resolver, com questões entre si por resolver, com sentimentos por gerir, mas naquele momento nada mais importava, além da liberdade que sentiam.

Então lindos, caminhavam, dançavam, cantavam, silenciavam, riam, a alegria estava em seus rostos, em seus corações, nos seus moveres, nos seus corpos, notava-se uma leveza, alegria, singileza, oh quão belo era o que sentiam.

Chuva, chuva, chuva, chuva de benção às suas vidas, aquele era um tempo de refrigério, de descanço, se sossego aparente, de paz, digo sossego aparente, porque apesar de tudo o que sentiam, havia sempre algo no seu interior que precisava ser resolvido, havia ainda algo escondido que não estava na luz.

Parou de chuver, porém apesar da temperatura alta que se sentia, dado á chuva, houve um tempo de frescura, este tempo de refrigério, então pararam de correr, pararam de caminhar e um dos amigos deitou-se na terra, sobre as folhas molhadas, estava a apreciar aquele momento de frescura, estava a sentir o cheiro da terra molhada, bem de perto, ele sabia o quanto estava a saber bem, porém tinha um feeling, a que chamam sentimentos, mas não era bem um sentimento, era uma percepção, sensação, relativa ao que iria acontecer, mas o que era?

Ele não podia adivinhar, mas ele sentia que algo ia acontecer.

Ali ficou a observar, a sentir, a cheirar, a ouvir.

Observava o céu azul iluminado pelo sol.

Ali estava como que a olhar para o céu aberto, céu aberto exposto a um olhar, aproveitando o momento, sorrindo, um sorriso nos lábios, um sorriso sincero, verdadeiro, satisfeito, um sorriso que vem do interior, de todo o ser e não apenas da mente.

Ali estava ele aproveitando o momento, sereno, calmo, tranquilo, oh! Que momento!

Um momento em que o corpo se eleva de uma forma, que apesar de estar com o seu corpo no chão, no momento parece como que um deixar de sentir o corpo, deicou de sentir o peso do corpo no chão, deixou de sentir a força de reacção da terra, e ali está deitado no chão, sentindo-se tão leve, como que coando e indo, seguindo a direcção do vento!

E os outros amigos onde estão?

Anda vamos! Levanta-te, vamos na aventura, vamos continuar, e lá vão eles caminhando, com um sorriso e alegria de criança com a expectativa do que irão encontrar, em cada rosto há uma expressão de expectativa, curiosidade, há algo que corre pelas veias, a euforia, a adrenalina da descoberta, a expectativa pelo que virá a seguir, o que irão encontrar?

Como se irão sentir?

E sorriem, sorriem, dão gargalhadas pelo que estão a viver, gargalhadas que vêm bem do fundo do peito.

Quando ao longo desta caminhada, avistam uma ponte, com a euforia, ao virem ouviam o som do riacho cada vez mais perto, ouviam a água correr com mais força e aperceberam-se então que não era apenas um riacho, não não era, era um rio bem grande que por ali passava, queriam atravessar o rio para a outra margem, podiam ir a nado, podiam passar na ponte, para irem a nado, tinham que descer pela encosta, tentar fazer caminha até chegar à margem do rio, boa :) é aventura, vamos lá abrir caminho!

- Ah! Mas e se fossemos pela ponte, é um caminho mais fácil!

- Olha que a ponte parece ser muito velha.

- Não parece, é mesmo muito velha, faltam tábuas, Ai! Será que pode cair?

- Sim, poder cair pode e depois e nós?

- E depois aproveitamos saltamos para o rio mergulhamos e continuamos a nado!

- Mas e o que há lá no rio?

Estamos na selva, deve haver cobras, corcodilos!

- Olha! Olha! Até agora não encontramos nada disso! É agora que vamos encontrar? Está bem está!

- Ok! Podemos não encontrar! Mas e se encontrarmos?

E se fizermos isso? Qual o plano B? Existe um plano B?

E ali estavamos perdidos no meio de tanta pergunta sem saber como passar o rio. Riscos haviam quer fossemos tentar chegar à margem do rio, quer fossemos atravessando a ponte, e se esta caisse?

Ai!

Um deles sem medir as consequências, sem se importar com nada, impulsionado pelo querer, pelo arriscar, pela adrenalina, pelo viver, pelo sentir, começa a correr pela ponte a dentro e grita: Vamos! Vamos! Anda! Venham! Que fixeeeee! Sou livre! I`m free!

Ouse-se chamar, ao chamar, há um tom de liberdade no soar das palavras, nada de medos, nada de receios!

Um outro amigo começa a correr atrás dele pela ponte a dentro: Estás louco, tu és louco, Oh! Doido volta paa trás! Olha que isto ainda cai e morremos hoje. Anda cá pá! Vem pra trás!

Este corre atrás do primeiro gritando atrás dele, para voltar, porém lá vai ele também correndo pela ponte.

Esta é muito longa, o rio é muito largo, lá em baixo ouve-se a água a correr com tanta força, água limpa, com muita corrente, corre fluentemente!

Mas há o outro amigo, que ali fica à entrada da ponte sem saber o que fazer, não quer ir atrás porque tem medo que a ponte caia, pensa: Mas o que é que eu fico aqui a fazer?! Vou também, a ponte não vai cair, sou parvo ao ficar aqui, se ainda não caiu, já não cai!

Será? Mas será que não cai?!

E se ainda não caiu, mas pode, ainda pode vir a cair!

E lá vão os outros dois a correr, um vai eufórico, o outro vai atrás pedindo para voltar atrás.

E o outro fica à entrada da ponte sem saber o que fazer, ali está, indeciso, com medo, apático, não sabe o que fazer, simplemente não sabe. Não sabe.

Ou sabe, mas o medo, a apatia versus pânico, não deixam que ele se mexa, são maiores que ele, não se vêem, não se ouvem, mas existem, estão dentro dele e simplesmente quer agir, quer raciocinar mas não consegue.

Os outros já estão quase no fim da ponte, quase a chegar à outra margem, param. E começam a discutir:

- Estás louco! A ponte pode cair!

- Estou louco. Mas vieste atrás de mim!

- Voltamos para trás!

- Não, já estamos a chegar não vamos voltar para trás! Anda! O que fazes ai parado, anda!

Não vês que aponte não caiu, não vai cair, anda vamos!

O que primeiro discutia e queria voltar atrás começa a ver que afinal já não valia a pena voltarem, estão a chegar.

- Anda vamos sair daqui depressa, corre para chegarmos ali, já, já ao outro lado.

- Anda dai, não vais ficar ai parado, anda!

Então o indeciso, pela insistência e olhando, vendo que nada tinha acontecido começa a correr para a frente.

Estes dois vão caminhando até ao fim da ponte, confiantes, agora conversam.

- Que fixe, isto é lindo!

- Estou estupefacto! Mas ainda não saimos daqui, tenho medo que isto ainda caia.

- Esquece isso.

Então um corre de uma ponta para chegar perto dos amigos e os outros dois vão caminhando quase, quase a chegar ao fim da ponte!

O indeciso vem a correr, libertando-se a si próprio, começa a sentir-se livre! Livre!

Mas! Mal ele coloca o pé sobre duas tábuas, estas partem-se, ele cai.

- Ai Ai Ai Aiiiiiiiiiii!!!!!!!!!! Ajudem-me! Ajudem-me!

Ele grita grita grita: Ajuda-me! Ajuda-me!

Ali está agarrado a uma tábua, seu corpo pendurado, a risco de cair.

Os outros assustam-se começam a correr, cheios de medo, o que fazer?

Correm, correm, correm para o sitio da ponte onde o outro está e ali chegam.

-Dá-me a mão!

Um estica-se, para baixo, para lhe dar a mão. O outro na ponte agarra-lhe os pés, e prende os seus às cordas da ponte.

- Dá-me a mão!

- Eu não quero morrer!!!

- Dá-me a mão! confia em mim! Dá-me a mão!

- Tenho medo.

- a tábua vai soltar-se. Dá-me a mão!

- Eu vou cair!

Lágrimas, choro, medo, inseguranças, receios.

O que está pendurado, todos tinham coisas a resolver entre si, coisas que tinham acontecido, falta de perdão, orgulho, teimosia, ali estavam. Mágoas por resolver, por libertar! Traições!

Infidelidades, falta de confiança, uns para com os outros!

Inseguranças, medos, receios, temores.

-Dá-me a mão! Confia em mim.

- Já confiei!

- Então dá-me a mão! Dá-me a mão!

- Tira uma mão, dás-me e depois dás-me a outra, eu seguro-te.

- Já confiei!

- como? Se não me dás a mão? Como confiaste?

- Já confiei!

E chora, chora, chora, olha para baixo, olha para cima e chora, chora, chora.

Tem que escolher, confia ou não, salva-se ou não, como?

Não há quem os ajude, só se têm uns aous outros, ali naquele momento têm que confiar neles. Um no outro.

A escolha é confiar, mesmo que já tenha sido decepcionado, confiar novamente, mesmo tendo sido traído, magoado. Confiar, confiar!

- Dá-me a mão!

Ali está ele de mão estendida, esperando que a confiança seja entregue na sua mão, arriscando-se, mas confiando no outro amigo que está segurando os seus pés.

- Dá-me a mão!

- Vamos morrer aqui, isto cai tudo!

- Dá-me a mão!

Ele não desiste, continua de mão estendida, dizendo no meio da aflição, mas com uma voz suave. dá-me a mão!

Dá-me a mão! Dá-me a mão!



E o amigo finalmente confiou, deu-lhe novamente a mão!

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